Posts filed under ‘Copa do Mundo’

Lucas, Ganso, Neymar e Pato

   Vendo os jogos do fim de semana, deu para reparar que existe uma espécie de corrente para que a linha de frente da seleção brasileira na Copa 2014 seja formada pelos jovens Lucas e Ganso, no meio, e Pato e Neymar, mais à frente. A sugestão é totalmente acertada se imaginarmos a dificuldade dos adversários para a marcação de um time habilidoso e veloz, criativo e contundente. Muitos dirão que Pato não decide nada, é só conversa fiada, mas ele mostrou quem é no sábado, diante de um San Siro abarrotado, vendo gente sair pelo ladrão. E o clássico Milan X Internazionale terminou com placar de 3 a 0 para o time de Pato, que fez dois golaços e praticamente selou o título de número 18 na lista de scudettos milanistas.

   Se Pato é contestado, ninguém nem ameaça falar nada a respeito de Neymar, que mesmo perdendo o clássico de domingo diante do Palmeiras, na Vila Belmiro, saiu limpo em relação a possíveis críticas da torcida. Só uma sambadinha em cima da bola foi motivo para deixar Patrick, meia palmeirense, louco da vida e sem ação na jogada, parecendo Rogério, a vítima de Robinho em 2002. Neymar deu outros lances bonitos, de puro espetáculo, que fazem com que se torne cada vez mais próximo o dia de sua partida do Brasil para jogar na Europa.

   E se Neymar tem o direito de sonhar com a Europa, mesmo fazendo lobby de maneira mais discreta, o mesmo não se pode dizer de Paulo Henrique Ganso, que tem flertado de maneira escancarada, aberta com times europeus. Ele parece não querer ficar mais um dia que seja na Vila Belmiro. Encucou que é mesmo o último camisa dez do planeta, o meia do jeito antigo de se jogar, uma espécie de Géson. Joga o fino da bola e quer receber por isso, mas tem que ter mais calma, sob o risco de sair chamuscado como o grande mercenário das galáxias e vilão no caso de uma eliminação precoce do Peixe na primeira fase da Libertadores. Amanhã tem jogo de vida ou morte na Vila, e a equipe depende de Ganso e Neymar para conquistar uma fundamental vitória contra o chileno Colo Colo. Caso contrário, o time fica na iminência da eliminação, e Ganso, da degola. A torcida parecia querer o pescoço de Ganso após mais uma derrota para o Palmeiras, há dois dias.

   E para completar o quarteto em forma técnica e física, Lucas, são-paulino. Ele tem feito jogadas de encher os olhos e domingo resolveu fazer um golaço, ainda que com as devidas ressalvas do fraco adversário, mesmo assim um dos melhores do campeonato, o Mirassol. Lucas fez tabela com um companheiro, recebeu a bola no meio de campo, levou uma meia dúzia de adversários no drible de corpo e seguiu carregando a bola. Como ninguém conseguia parar o gaiato, Lucas fez o mais bonito da jogada, fintando o goleiro com um lance de futebol de salão, tocando da perna direita para a esquerda e rolando para o gol vazio. Era a coroação do craque de bola, mas que precisa de muita calma, sob o risco de um Wagner Ribeiro encaminhá-lo para que o menino se veja como um Pelé ou Garrincha. Se tiver cabeça, vai longe, assim como é imenso o horizonte de seus três cotadíssimos companheiros de linha de frente de seleção brasileira e de times de ponta na Europa, no Brasil e onde quer que seja, recebendo bem para isso.

abril 5, 2011 at 6:31 pm Deixe um comentário

Técnico ganha jogo?

   A resposta é sim, pois técnico tem condições de ganhar uma partida para a sua equipe, desde que ela tenha jogadores capazes de uma vitória. Só que não ganha sozinho, é claro. Treinadores como Felipão conduziram elencos razoáveis e bons a conquistas expressivas, como a Libertadores conquistada pelo Grêmio em 1995, ou então a mesma competição, aí conquistada pelo Palmeiras do próprio Felipão, em 1999. Muricy, por exemplo, parece mostrar com o Fluminense que conhece o caminho das pedras no Brasileirão por pontos corridos. Injustamente, dirão que ele não sabe ganhar torneios de mata-mata, pois perdeu seguidas vezes com o São Paulo na Libertadores, que todos dizem ser especialidade de Felipão.

   Outra comparação que todos fazem agora é com relação à seleção brasileira. Após o primeiro amistoso sob o comando de Mano Menezes, todos colocaram Mano no ceú por ter convocado Ganso e Neymar, além de outras pérolas jovens, e por ter preterido jogadores como Felipe Melo, Michel Bastos, Josué, Kléberson, Júlio Baptista e outras pérolas do período de Dunga. Obviamente, Dunga foi ao inferno por ter perdido a Copa, não sozinho, claro, mas com essas apostas que todos dizem ter sacramentado a derrota brasileira. Dizem até que o comportamento de Dunga com a imprensa influenciou no resultado, tanto que Mano já foi em vários programas da TV Globo, tornando-se logo o queridinho da imprensa. Até quando isso vai durar? Mano não é o profeta, mas fez o simples, convocando quem está jogando o fino da bola e tem potencial para melhorar. Dunga errou ao apostar num time forte de marcação, mas que falhou justamente em tomar uma virada de um grande time, a Holanda, que o Brasil não soube marcar, e depois ão soube atacar e voltar para tentar reagir e seguir no mundial. Ninguém quer ouvir falar de Dunga em território brasileiro. Virou palavrão, mas será justo isso?

   Na visão do senso comum, Muricy só sabe ganhar campeonato por pontos corridos e Felipão é o gênio copeiro, ganhador de Copa do Mundo, Libertadores e Copas do Brasil. A mesma opinião coloca Dunga na berlinda por não ter ouvido a voz do povo, a mesma voz que criticava a seleção de Telê em 1982, antes da Copa, e que se rendeu à equipe, mesmo derrotada. Mano é o técnico do momento, mas esse momento é tão efêmero que as coisas podem mudar de figura se não continuarem bem nos próximos amistosos, marcados para o início de setembro. Até lá, o gaúcho pode curtir os louros de ser a sensação, o cara que virou o jogo de uma seleção que era criticada e cuja derrota todos dizem ter previsto antes da Copa. Mano fez o simples, mas os jogadores vão se encarregar de sustentá-lo no topo, mostrando que ele pode ganhar esse jogo que termina em julho de 2014, no único torneio que interessa aos brasileiros, já desdenhando de Copa América, Copa das Confederações e até de Olímpiada. A menos que faça muita bobagem, Mano estará na direção do Brasil em 2014, quando a seleção completa 100 anos de jogos, com a expectativa de um hexacampeonato mundial. Mano vai ganhar essa? Tomara que sim.

agosto 17, 2010 at 1:23 pm Deixe um comentário

Brasil causa boa impressão em estreia de Mano, David e principalmente dos Meninos da Vila

   Que espetáculo de bom futebol mostrou o Brasil ontem, contra os Estados Unidos, em Nova Jersey. Os 77 mil pagantes viram um time jogando feito equipe de futebol de salão, com dribles curtos e toques rápidos, envolventes, além de muita disposição física e qualidade técnica. Irrepreensível a estreia de Mano Menezes comandando o time, com destaque para as atuações de gala de Neymar, Ganso e André Santos, com bom desempenho do trio pelo lado esquerdo, de onde saíram grandes jogadas, mas com participação de outros jogadores, em atuação digna de encher os olhos. O zagueiro David Luiz, do Benfica, mostrou por que Mano apostou nele, companheiro de Luisão, um dos queridinhos de Dunga, antecessor de Mano. O moço com cabelo à Anderson Varejão jogou o fino da bola na zaga e parecia um veterano de seleção. Os críticos do Mano vão dizer que o Brasil chutou uma galinha morta, mas o adversário jogava em sua casa e foi um dos grandes times da Copa do Mundo, com a base mantida para o tal amistoso.

   O primeiro tempo começou com cara de nervosismo brasileiro, com erros de passes, principalmente de Daniel Alves, o pior jogador brasileiro em campo, que o diga o comentarista Paulo César Vasconcelos, do Sportv. Logo que o gelo quebrou, perto dos dez minutos, o Brasil passou a reinar soberano no campo. Neymar foi um azougue pela esquerda, fazendo trinagulações com Pato, André Santos, Ganso ou quem quer que fosse. Jogou como se veterano fosse, e a premiação foi um cruzamento perfeito de André Santos para o Menino da Vila executar de cabeça, certeiro, sem chance para Howard. Eram 28 minutos do primeiro tempo, e o Brasil foi ainda mais dominador a partir daí, sem deixar os Estados Unidos respirarem e tentar reagir. O Brasil tinha jogadores dignos de futsal, mesmo, pois os toques eram curtos, contrariando até o que Mano pedia à beira do campo. Lucas marcava bem as poucas tentativas norte-americanas de sair do campo de defesa, tanto que o jogou parecia um treino de ataque contra defesa, com a bola quase o tempo todo no campo dos Estados Unidos. Pato se destacou com parceiros mais novos que os velhinhos do Milan (Gattuso, Ambrosini, Seedorf, Pirlo), com os quais ele habitualmente joga. E num desses lances ele recebeu uma bola e fez o gol, chocando-se com o goleiro, mas sem fazer falta. Todos já comemoravam há alguns segundos quando o bandeirinha invalidou injustamente o lance, alegando falta no goleiro. Só de raiva, Ramires, atleta de confiança de Dunga, deu um passe na medida para o mesmo Pato fintar o goleiro e executar o segundo gol brasileiro, fechando o primeiro tempo com chave de ouro.

   Na segunda etapa, o Brasil manteve o ritmo frenético, com muita troca de passes. No total, o Brasil deu 697 passes, com aproveitamente de 93,4%, contra 287 dos Estados Unidos.  Foi um segundo tempo de encher os olhos, mas sem o coroamento com novos gols. Duas bolas pipocaram na trave americana. Primeiro, foi Robinho que finalizou e viu a bola explodir no poste. Depois, Ganso arrematou de forma primorosa, carimbando a trave. Ganso era o maestro do time, com toques de calcanhar, lembrando muito Sócrates nos bons tempos dos anos 1980. E os suplentes foram entrando com bom futebol para mostrar. Hernanes entrou de forma muito boa em lugar de Ramires. O volante ou meia são-paulino mostrou técnica no drible e no lançamento, além de ter um chute preciso de longe ou de perto. Neymar saiu aplaudido de pé para a entrada de Éderson, que se machucou logo no primeiro lance e teve que ser trocado por Carlos Eduardo, outro a entrar e manter o nível elevado de posse de bola e toque refinado do Brasil. André, Jucilei e Diego Tardelli também entraram e puderam estrear com vitória no time de Mano e do povo brasileiro, principalmente pelo que foi visto ontem. A pergunta sobre a fragilidade do adversário não se sustenta, a menos que na próxima partida o Brasil perca o encanto e descambe. Hoje, todos que viram o jogo são unânimes em demonstrar encantamento pelo forma como o Brasil jogou.

   Agora, todos esperam para ver quais serão os dois próximos adversários em confrontos amistosos já marcados para o período de 3 a 8 de setembro. Uma coisa é certa: a primeira impressão não poderia ser melhor. Que continue assim. O povo brasileiro mecere; o mundo do futebol também.

agosto 11, 2010 at 1:00 pm Deixe um comentário

Cultura da arrogância e das aberrações

(Texto de autoria de Vitório Zago, jornalista, historiador e melhor cronista de futebol que conheço)

   O Brasil é um país que vive, no universo do futebol, uma cultura arrogante e cheia de aberrações nas caracterizações e comentários sobre esse esporte que desperta uma enorme paixão no planeta todo. Uma boa parte dos cronistas e comentaristas esportivos, ditos especialistas de futebol, cometem erros e fazem caracterizações absurdas sobre determinados momentos do nosso esporte bretão.

   Que fique claro que me refiro a uma parte (provavelmente a minoria) dos cronistas e comentaristas, e não a todos. O mesmo não se pode falar do universo dos torcedores, pois nesse caso, é a maioria mesmo. Mas acho que eles podem fazer isso. Podem extravasar, exagerar, fantasiar etc… Os outros não.

   Falta observarmos o futebol com uma visão mais científica, ponderada, embora muito desse universo, tão onírico e apaixonante, seja realmente passível de se caracterizar a partir de paixão, gosto e uma simples opinião, havendo aí, portanto, infinitas divergências, alimentando um rico mundo da bola, algo que muitos acreditam ser uma das graças desse esporte, assim como os erros de arbitragem.

   Refiro-me aqui hoje ao contexto das Copas do Mundo e das participações do Brasil nelas. Mas é possível transportar isso para o futebol dos clubes também. Tenho ouvido enormes críticas a Dunga e seus comandados. O técnico, em especial, é alvo de infindáveis gozações e insultos, sendo muitas vezes ridicularizado… Falam em eras Dunga e etc…

   É fato infelizmente que ao analisarmos a Seleção sempre partimos de uma premissa estúpida de que o Brasil é o melhor sempre e que deve vencer sempre. Assim, quando perdemos, isso ocorre ou porque o árbitro errou ou porque nós comentemos alguns erros ou porque existe alguma conspiração contra nós ou estabelecida por “forças ocultas”, para determinar os vencedores por razões políticas e econômicas. Parece que jogamos sempre contra o vento…

   O trabalho de Dunga foi excelente, queiram alguns brasileiros ou não. Dunga teve uma trajetória de grande sucesso na Seleção, com vitórias e títulos. Mesmo na Copa do Mundo da África do Sul, o time foi muito bem, embora não tenha acertado alguns detalhes táticos, o que é normal e caído prematuramente para nós. O time brasileiro foi bem armado e era uma equipe com grande poder de marcação e um ataque muito forte. E um time criativo também, embora tenha mostrado em alguns momentos falhas no setor de criação e ligação do meio com o ataque. Mas isso não foi exatamente uma característica marcante do time.

   O Brasil de Dunga nunca atingiu a perfeição… Existiram seleções mais fortes, mas alguma seleção atingiu tal condição na história? Caímos simplesmente porque fomos superados e no futebol, alguém ganha e alguém perde. Nada mais natural. E não porque não defendíamos uma bandeira do futebol ofensivo ou do futebol espetáculo. Isso, como já disse antes, não existe. Nenhum time carrega bandeira nenhuma. Nenhum time se prepara para dar espetáculos. Eles ocorrem eventualmente quando o time é muito bom e tem condições para isso. Nada demais… Felipe Melo de fato errou e muito no gol e na expulsão. Mas não foi isso que determinou a nossa derrota, e sim a superioridade dos holandeses. Só isso.

   É claro que todo trabalho numa seleção nacional é passível de críticas, naturalmente. Todo mundo sempre tem algum comentário ou alguma crítica, algum pitaco a dar. Eu mesmo tenho, por exemplo. Considerei a não convocação de Ronaldinho Gaúcho um grave erro de Dunga, mas não considerei esse um fator determinante para a nossa eliminação precoce na Copa. Um craque que não esteja bem tecnicamente ou fisicamente, ou que esteja contundido, realmente não deve ser convocado. Mas isso pode não valer para um jogador genial. Além disso, nada acima descreve a situação do genial Ronaldinho Gaúcho antes da Copa.

   A comissão técnica da Seleção alegou que ele não estava bem tecnicamente. Isso não é verdade. Ele se destaca no Milan e tem tido boas atuações sim. Não conseguiu ser brilhante é verdade, e parte disso se deve ao fato de que ele joga num time bom, mas nada espetacular. Um jogador para brilhar e conseguir ser até o melhor do mundo, precisa estar num time que possibilite isso. O Milan não é esse time. Mas quando esteve no Barcelona, Ronaldinho Gaúcho foi naturalmente o melhor do mundo. O mesmo vale para os outros jogadores. Messi seria o melhor do mundo jogando em outro time, mais fraco que o Barcelona atual? Não. Assim como Zidane e Ronaldo, se não estivessem jogando no então poderoso time do Real Madrid, também não conseguiriam.

   Outro argumento utilizado foi o “comprometimento” dele com a Seleção. Aliás, essa foi uma das supostas bandeiras de Dunga em sua trajetória no comando do Brasil. Muitos dizem que “pelo menos” ele resgatou esse “comprometimento”, esse tal “espírito”. Essa é uma idéia boba e que não tem fundamento. Em primeiro lugar ela se baseia numa suposta falta de comprometimento da Seleção de Parreira em 2006, quando a imprensa transformou Roberto Carlos e suas meias desarrumadas em símbolo do fracasso. O que não houve, já que o problema na verdade foi uma preparação inadequada, talvez fruto sim de arrogância, mas não falta de comprometimento. Nem sempre arrogância leva a falta de comprometimento. Em 2006 tínhamos os melhores jogadores do mundo, mas não o melhor time.

   Essa é uma idéia tola. Quando na história faltou a alguma seleção do mundo comprometimento? Ainda mais numa Copa do Mundo? Isso não existe nem mesmo em peladas de rua. É claro que podemos ter motivações diferentes numa partida, afinal disputar um jogo do Mundial é diferente de disputar um acirrado embate na rua. Duvido que alguém consiga mostrar um único exemplo…

   Portanto não faltava comprometimento a Ronaldinho Gaúcho. Ele não estava machucado. E tecnicamente não estava mal. E ele é um gênio. Assim, é fato que Dunga errou em não levá-lo e aqui também duvido que alguém consiga algum argumento para sustentar a atitude do técnico. O mesmo não vale para Paulo Henrique Ganso e Neymar. Primeiro porque são jovens demais e não haviam sido testados na seleção principal, tendo inclusive, os dois, fracassado na seleção de base do Brasil. Além de ir contra a lógica do trabalho do treinador, era também arriscado. Dunga acertou em não levá-los. Hoje inclusive, ambos vivem uma fase ruim no Santos, sem dizer que eles têm tido atitudes antipáticas e arrogantes, fruto provavelmente desse assédio e de um sucesso exagerado, sem ter os pés no chão. Pena, pois dois talentos podem se perder prematuramente…

   Portanto é injusto, além de não haver nenhum fundamento, criticar o trabalho de Dunga. E a CBF foi covarde ao não blindar, prestigiar e reconhecer tal trabalho e o próprio treinador, cedendo às investidas de uma imprensa e de uma torcida sedenta em achar um culpado. Não terminou uma segunda “Era Dunga” porque nunca houve uma “Era Dunga”. Em 1990, o time de Lazzaroni também não foi mal. Caiu nas Oitavas de Final é verdade, na pior campanha desde 1966, mas caiu no melhor jogo do time, quando foi superior à Argentina, tomando um gol num único lance deles na partida, num lampejo de genialidade de Maradona e Canniggia, a dez minutos do final. Para incrementar a situação, falou-se na época que o time estava dividido e que havia interesses de patrocinadores assombrando e atrapalhando a Seleção, o que nunca se comprovou. Enfim, Dunga foi eleito um dos culpados e o fracasso ganhou injustamente o nome de “Era Dunga”. E para finalizar, some a essa arrogância as malucas teses conspiratórias. A cada Copa temos uma desculpa, preferimos e nos esforçamos em criar explicações mais arrojadas e complicadas, quando na verdade, na maioria das vezes, as causas são bem simples e naturais.

   Em 1930 e 1934, não ganhamos porque levamos aos mundiais apenas combinados cariocas, devido a uma divisão interna do futebol brasileiro… É verdade, mas os melhores times na época eram Uruguai, Argentina e Itália.

   Em 1938 só não ganhamos porque éramos ingênuos, porque poupamos na semifinal Leônidas da Silva, considerado o melhor jogador do Mundial, e perdemos da Itália, mais experiente… Mas a Itália era o melhor time do mundo na época e na semifinal chegou a fazer 2 a 0 no Brasil, que só marcou seu gol no finalzinho do jogo.

   Em 1950 não ganhamos porque bobeamos e fomos displicentes, ou porque Barbosa falhou, ou porque os deuses da bola não queriam, foi uma tragédia inimaginável no Maracanã, afinal como poderíamos perder a Copa?… Mas o Uruguai era um grande time, foi melhor e nos bateu taticamente, virando o jogo na raça.

   Em 1954 não ganhamos porque perdemos a cabeça diante da Hungria de Puskas, e depois até partimos para uma pancadaria armados de chuteiras que chegou até os vestiários… Mas a Hungria era a maior seleção da época, que há anos encantava o mundo e, apesar de termos conseguido empatar o jogo num determinado momento (2 a 2), caímos diante de um adversário bem melhor no final (4 a 2).

   Em 1966 não ganhamos porque nossa preparação foi bastante confusa e esdrúxula. Pouco antes da Copa tínhamos basicamente dois times com reservas e tudo convocados por Vicente Feola e nenhuma definição ou treino efetivo mesmo para o Mundial… Não há um “mas” aqui, de fato o Brasil não se preparou adequadamente e provavelmente seria o melhor time do mundo naquela época, pois tinha os melhores jogadores, mas caiu logo na fase inicial.

   Em 1974 não ganhamos porque a comissão técnica desprezou a Holanda e não se preparou para enfrentá-la… Mas a Holanda era o melhor time do mundo na época, e encantou o planeta com o seu futebol total. E sim a comissão técnica conhecia muito bem a Holanda, que era mais forte que o poderoso Brasil.

   Em 1978 fomos os campeões morais, sem nenhuma derrota (a campeã Argentina perdera da Itália na fase inicial), mas não ganhamos porque houve uma conspiração, uma trama para levar a Argentina ao seu primeiro título mundial, que envolveu até a seleção do Peru, que entregou o jogo para os argentinos, pois era o que a ditadura da época queria para aliviar a tensão no país e reforçar o regime, sem dizer que estava na hora da Argentina ser campeã do mundo… Mas nunca houve prova ou qualquer indício de que os peruanos entregaram o jogo. Absolutamente nada! O fato é que se o Peru era um grande time, a Argentina era melhor. Mais. Na decisão, o título quase escapou dos argentinos, pois venciam até o final, quando a menos de dez minutos para o encerramento do tempo normal, a forte Holanda empatou o jogo e no finalzinho acertou a trave, escapando ali o título para os europeus. Na prorrogação os argentinos foram melhores e superaram os holandeses por 2 a 0.

   Em 1982 não ganhamos porque cruzamos com Paolo Rossi e os deuses do futebol resolveram aprontar de novo nesse dia… De fato não há explicação, apenas perdemos uma partida diante de um adversário inferior de forma surpreendente, pois o Brasil montara um dos melhores esquadrões da história. Podíamos jogar dez vezes com os italianos, venceríamos nove e provavelmente perderíamos aquele jogo naquele dia em Sarriá…

   Em 1986 não ganhamos porque os maiores craques do Brasil na época, Zico e Sócrates, perderam pênaltis diante dos franceses, além disso, Zico estava machucado… Zico não estava mais machucado, tinha condições de jogo e Telê acertou em levá-lo para Copa. O Brasil foi muito melhor que a França, mas perdeu a partida, o que as vezes acontece no futebol, natural, como fora em 1982.

   Já falamos de 1990.

   Em 1998 não ganhamos porque vendemos a Copa para os franceses, pois havia um acordo da FIFA com os respectivos governos de que chegara a hora da França ser campeã mundial. Sem dizer que a França passava por uma crise econômica e social na época e um título seria benéfico para amenizar a situação no país. Ronaldo simulou uma convulsão para ajudar na farsa e, além disso, o Brasil seria beneficiado deliberadamente mais para frente, ganhando títulos e ganhando a disputa para ser sede da Copa… Essa tese absurda e ridícula aparece sempre nas épocas de Copa do Mundo. O fato é que a França se acertou durante a Copa e era muito forte e nos venceu porque nos superou na final em detalhes táticos, pois seu técnico Aimé Jacquet nos estudou muito bem. E Ronaldo realmente teve uma convulsão.

   Já falamos de 2006.

   O Brasil deveria festejar a boa campanha de Dunga ao longo dos mais de três anos de trabalho. Se não há o que comemorar na nossa campanha na Copa, realmente, pelo menos deveríamos ter recebido bem aqueles que nos representaram, que lutaram pela Copa. Mas infelizmente estão sendo chamados de decadentes e mercenários agora. Que possamos evoluir nessa nossa decadente cultura futebolística…

julho 23, 2010 at 5:08 pm Deixe um comentário

A Espanha é a nova campeã mundial e a Holanda é mais uma vez vice

(Texto de autoria de Vitório Zago, jornalista, historiador e melhor cronista de futebol que conheço)

   Espanhóis e Holandeses já se enfrentaram no passado em outros campos de batalha. O território hoje chamado de Países Baixos (ou Holanda por nós e pela maioria do planeta), já fez parte do reino de Carlos V, rei da Espanha no século XVI. Entre 1568 e 1648 ocorreu a Revolta Holandesa ou Guerra dos 80 Anos, uma guerra pela independência das províncias dos Países Baixos. Nesse momento da história, quando os holandeses se emanciparam em meados do século XVII, a Holanda emergiu como uma potência econômica mundial e concorreu com os pioneiros portugueses e espanhóis, além de franceses e ingleses, na luta pelo domínio das colônias. Era o período das Companhias das Índias Ocidentais e Orientais… 

   A batalha que se viu no Soccer City no domingo, apesar de alguns lances violentos, principalmente dos holandeses, embora a Espanha também tenha respondido ao jogo duro, foi um tipo de batalha bem diferente, um embate bonito, mágico, apaixonante. Tendo o esporte como razão e pano de fundo, os guerreiros espanhóis e holandeses se enfrentaram embalados pelo talento de Shakira, ao som de “Waca Waca”, música tema oficial da Copa da África do Sul, a mais bela canção da história das Copas. “Chegou o momento, caem as muralhas… Vai começar a única das batalhas justa… Não fere o golpe, não há medo… Tire a poeira, se ponha de pé e volte para a arena…”

   A Fúria, como é conhecida a seleção da Espanha, é o mais novo membro do seleto grupo de campeões mundiais de futebol. Os espanhóis foram de fato os melhores na competição, não só pelos resultados, mas também pelo futebol praticado. Na decisão tiveram mais posse de bola e criaram mais, embora as duas melhores chances de gol foi a Holanda quem as criou, através de Robben, em duas defesas espetaculares de Casillas, hoje o melhor goleiro do mundo, e que extravasou sua alegria beijando a boca da jornalista Sara Carbonero, musa espanhola e sua namorada, durante uma entrevista. O gesto surpreendente e bonito, um beijo real e não hollywoodiano, foi uma surpresa para o planeta e principalmente para a desconcertada e feliz repórter.

   Ainda imagino a emoção contida dos espanhóis quando Iniesta recebe livre na direita, domina e chuta cruzado. Um momento silencioso e fugaz na prática e eterno aos olhos dos espanhóis. Gol! Não um gol. Mas “o Gol” para os espanhóis. Iniesta, o melhor da Espanha ao lado de Xavi, humano que é deve ter fechado os olhos, mas a torcida deve os ter arregalado em meio a faces aterrorizadas. Por outro lado, também imagino a angústia sensibilizante das faces holandesas, nos olhos fechando, nas bolas perdidas de Robben…

   Nas falas alguns exageros podem ser perdoados. A Espanha não é e nunca foi um time extraordinário, como muitos a caracterizaram desde a conquista da Eurocopa de 2008. E tão pouco ela joga para encantar ou tem como princípio o “jogo bonito”. Isso não existe. Ela é um excelente time, hoje o melhor, e que é capaz, por isso mesmo, de jogar bonito, uma conseqüência, portanto, e não um objetivo ou um fim. Assim, ela não irá incentivar o “jogo bonito e o espetáculo”, mas sim a formação de times fortes, com bons jogadores e taticamente ofensivos. Esse, espero, deve ser o legado dos brilhantes espanhóis.

   Um time entrosado e que tem como característica ter a posse de bola sempre, envolvendo o adversário até encontrar um caminho para o gol, o que consegue graças a um elenco muito talentoso e técnico. Um time com muita paciência, até demais, pois por ter certo preciosismo, isso a faz criar muitas chances e errar muitas finalizações. Essa é a campeã Espanha.

   Pois enfim, a “Fúria”, muitas vezes alvo de chacotas pelo apelido que não condizia com a realidade de títulos do time, desencantou. Pior para a Holanda, que agora será lembrada como a seleção que chega, mas nunca ganha. Numa alusão ao histórico uniforme laranja, jornais se referiram ao esquadrão holandês após a decisão como a “Amarela Mecânica”…

   A Espanha chegou pela primeira vez a uma decisão e já conquistou o título. Antes só havia conseguido um quarto lugar em 1950. Mas a Holanda chegou à decisão três vezes e perdeu todas. Além disso, também fora quarto lugar em 1998. O fato é que a Holanda só não tem mais vice-campeonatos que a Alemanha, que foi quatro vezes segundo lugar. Mas os alemães são tri-campeões mundiais, e perdem somente para o penta-campeão Brasil e para a tetra-campeã Itália. Com dois títulos aparecerem o Uruguai e a Argentina, e com um título, a Inglaterra, a França e agora a Espanha, os três com menos finais disputadas que os holandeses! A Argentina, Tchecoslováquia, Hungria, Brasil e Itália têm dois vice-campeonatos. E Suécia e França têm um vice.

   Mas podemos dizer que a Holanda faz parte de um grupo muito seleto, o de seleções que encantaram e não levantaram o troféu. Nesse grupo, além da Holanda de 1974 e 1978 (e também o de 2010, a despeito do que muitos falaram, essa seleção é para mim muito talentosa e inspiradora), está a Hungria de 1954, comandada por Puskas, sem contar, como afirmei acima, outros vices que encantaram, mas que já conquistaram títulos, como o Brasil de 1950 ou a Alemanha de 1982 e 1986.

   O título da Espanha premiou o time mais talentoso e que mais jogou de forma ofensiva. A festa em solo espanhol emocionou. Assim como emocionou ver a recepção que holandeses e uruguaios tiveram em seus países. Foram recebidos como heróis. Brilhantes! A Alemanha, por sua vez, que encantou nessa Copa, foi recebida com frieza, ou melhor, não foi recebida pelos alemães… Brasileiros e italianos receberam seus jogadores de forma fria, amarga e, as vezes, em meio a muita tensão. Arrogantes! 

   Já estou com saudade da Copa e de toda a sua atmosfera e encanto. Até 2014 aqui. Tenho a esperança de ver um Brasil melhor e que o logo feinho cheio de mãos, quem sabe, seja trocado… África e Jabulani eternizadas… “Chegou o momento, caem as muralhas… Vai começar a única das batalhas justa… Não fere o golpe, não há medo… Tire a poeira, se ponha de pé e volte para a arena…”

julho 15, 2010 at 10:51 am Deixe um comentário

Iniesta? Initesta? Não, Inifesta

   Triste de uma nação que vive de heróis, alguém já disse isso há algum tempo, e Iniesta, o moço de Fuentealbilla, nascido em 1984, portanto com 26 anos, foi o dono da festa do título mundial da seleção espanhola, um herói de si mesmo, não um herói de pátria, salvador de nação etc. Todo garoto espanhol, brasileiro, argentino, alemão etc., que goste de futebol, sentiu vontade de ser Iniesta ontem, quando o meia barcelonista, como são barcelonistas quase todos os titulares da Fúria, fez o gol do título aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, numa final contra a poderosa Holanda, que bate ardido, sem dó, e que segurou o empate por 0 a 0 até aquele momento. Ele não foi o melhor do jogo, não foi craque o jogo inteiro, mas bateu uma bola precisa no final de uma prorrogação, e isso o eleva à condição de figura invejada para todos os futebolistas do planeta. Mesmo quem não gosta de futebol queria sentir o gostinho de fazer o gol do título e sair alvejado pelas câmeras do mundo inteiro, extravasando a festa do futebol, a festa do testudo meia que foi sempre coadjuvante no Barcelona, onde joga desde 2002, após ter passado pelo time B desde 2000.

   Talvez resida no Barcelona o título de campeão mundial que os espanhóis conquistaram ontem, em jogo no qual tiveram boas chances de ganhar por placar dilatado, mas também tiveram chance de perder o jogo até por mais de uma vez, principalmente quando Robben, o craque holandês, surgiu na cara de Casillas duas vezes, sozinho, como um azougue, sendo interceptado pelo brilhante goleiro, e dessa vez ninguém chiou que ele tenha olhos só para a bela jornalista, namorada, sempre por perto nas transmissões de jogos da Fúria. E um time que não havia sequer disputado uma final foi campeão do mundo, jogando bem contra um time que fica como vice pela terceira vez. Dirão que nas outras duas vezes a Holanda não teve como ganhar, pois jogava contra os donos da casa: Alemanha, em 1974, e Argentina, em 1978, mas a Holanda era poderosa mesmo contra donos da casa nos anos 1970. Talvez a ausência de Cruyff, em 1978, tenha deixado o time meio órfão, mas a equipe laranja teve condições de ser campeã em 1974, 1978 e também 2010, pois Sneijder e Robben eram jogadores que poderiam decidir o jogo num único lance, mas o lance decisivo foi de Iniesta, o testudo da Catalunha.

   Se fosse para contabilizar gols perdidos, a Espanha ganharia, pois perdeu logo de cara duas boas chances, primeiro com Villa e depois com Sergio Ramos, o lateral que quase virou artilheiro, primeiro com um cabeceio letal, quase como Kluivert fez em 1998, contra o Brasil, mas parou na defesa de Stekelenburg, depois com um chute cruzado, perigoso. Iniesta, mesmo, foi perigoso várias vezes, mas era criticado pelo narrador Luiz Carlos Júnior, do Sportv, por não chutar, por ser precisosista. E eis que o jogo teve seus lances violentos, duros, como um pontapé do volante De Jong no peito de Xabi Alonso, mas o árbitro deu só amarelo, premiando o agressor, que quase tira o volante adversário de campo. No fim, deu o lance decisivo, com bola vindo da esquerda, de Fernando Torres, que entrara depois de muito se aquecer, para Fábregas, que também entrara no decorrer do jogo para assistir Iniesta, entrando na direita, sem impedimento, e fuzilando com um tiro seco, cruzado, sem chance para o gigante Stekelenburg. Com dois minutos para o fim do jogo, nada mais poderia ser feito pelos laranjas. E o fim do jogo explodiu o mundo em festa espanhola. Em todos os rincões do mundo, onde houvesse um espanhol, descendente ou simpatizante do belo país, havia festa e alegria pelo ineditismo do título.

   Com o belo futebol, os idiotas da objetividade, termo usado pelo genial Nelson Rodrigues, dirão que a Espanha fez poucos gols em toda a Copa, mas jogou bonito, deu drible, tocou a bola, dominou-a, fez o que quis com a bola nos pés etc. Ninguém jogou melhor que a Espanha na Copa. O único porém foi a primeira partida, em que a Fúria foi acalmada pela Suíça, com uma derrota que campeões mundiais já tiveram, que o digam Alemanha (1954 e 1974) e Argentina (1978). De resto, só aconteceram vitórias, ainda que magras de gols, mas fartas de talento e bom futebol. O mundo da bola está premiado, e Iniesta vai dormir como um anjo por muitas noites, muitos meses, ainda mais que logo começará a disputar o Campeonato Espanhol em agosto, junto com quase todos os companheiros barcelonistas de Copa, todos do time favorito novamente a títulos nacionais (Campeonato Espanhol e Copa do Rei) e continental (Champions League).

   E não se pode deixar de dar crédito ao bom time holandês, que conheceu seis vitórias até a final, sem conhecer prorrogação. Dirão que só bateram na final, mas o time é de qualidade. Dirão que Van Persie quebrou galho de centroavante, mas ele abriu espaço pelas pontas para o brilho de gente como Sneijder e Robben. E não se pode esquecer do melhor lateral-esquerdo da Copa: Van Bronckhrost, com o espetacular gol contra o Uruguai, o mais belo da Copa. A marcação holandesa foi dura, mas quem viu 1974 sabe que os holandeses, mesmo os grandes jogadores, também sabem jogar duro quando é necessário, como fizeram os craques na batalha que tiveram contra o Brasil no citado ano. E ainda que Sneijder tenha brilhado com exagero na Copa, não foi dele o título de melhor jogador da Copa, conferido a Forlán, esse sim um mágico, pois carregou um time como o do Uruguai às semifinais, sempre com jogos regados a emoção à flor da pele, culminando com um jogão contra a Holanda de Sneijder, que prevaleceu num épico 3 a 2.

   Por último, desejamos que os cegos que não viram emoção e bom futebol nesta Copa comprem óculos, pois jogos emocionantes e com bom futebol foram muitos neste certame, que o digam Uruguai, Holanda, Alemanha e Espanha. E que o diga Iniesta, autor do chute perfeito, dono do jogo e da cena que ficará mais marcada na Copa 2010, a Copa da mágica África do Sul, como é mágico o futebol. Parabéns, Espanha e África do Sul. E viva o futebol.

julho 12, 2010 at 11:34 am 1 comentário

Uma encantadora Copa e sua final inédita

(Texto de autoria de Vitório Zago, jornalista, historiador e melhor cronista de futebol que conheço)

   Uma decisão que conduzirá à história um novo campeão mundial é um desfecho perfeito para uma Copa, que se não foi recheada de dribles, como muitos queriam, foi encantadora em muitos outros aspectos, desde o seu show de abertura e sua linda canção tema, interpretada pela estonteante e sempre simpática Shakira, até os inúmeros momentos de emoção e espetáculo que os jogos nos presentearam. A África do Sul representou de forma competente e alegre todo o continente, numa resposta política à desconfiança do mundo, e que por isso deve ter proporcionado a todo africano, em cada canto do continente, um grande orgulho, que se espalhou e contagiou todo o planeta.

   Por ser a competição uma copa e não exatamente um campeonato, nem sempre os melhores chegam à final. A última Copa é um exemplo. França e Itália não eram exatamente as melhores seleções do planeta. Mesmo o Brasil de Parreira, com todos os problemas apresentados por não ter se preparado adequadamente, era superior aos dois finalistas. E na final venceu a Itália, quando a França fora melhor…

   Mas dessa vez isso não aconteceu. Chegaram de fato à decisão do mundial as duas melhores equipes do planeta na atualidade. Uma Espanha, com o seu melhor time em todos os tempos que há dois anos vem encantando a todos e liderando o ranking da FIFA, e que mesmo decepcionando na Copa das Confederações ano passado, era grande favorita ao título. E uma Holanda, que se não chamou tanta atenção nesse período, está há dois anos invicta e nessa Copa simplesmente venceu todos os jogos. Poucos foram os cronistas esportivos, que corretamente incluíram os holandeses como um dos prováveis finalistas. Aos outros cronistas faltou fazer a lição de casa…

   Muitos apostaram na Alemanha ao longo da Copa. Ela de fato é uma equipe poderosa e que encantou em alguns jogos. Schweinsteiger, Özil, Müller e Khedira são preciosidades. Mas é fato também que seu sucesso na competição se justifica por alguns pontos. As goleadas de quatro podem ser explicadas facilmente. A Austrália marca bem e só, é muito limitada. A Argentina é formada por excelentes e geniais jogadores, mas desde que Maradona assumiu o comando, nunca apresentou uma organização tática, nem mesmo razoável. El Pibe foi genial como jogador, mas é preciso encarar que como técnico pouco sabe… E contra a Inglaterra não devemos esquecer que a anulação do legítimo gol de Lampard, levando aos 2 a 2, provavelmente daria outros rumos ao jogo…

   O Brasil foi um dos favoritos porque de fato tinha um time muito talentoso e muito bem organizado taticamente por Dunga. O que a seleção canarinho não encontrou pelo caminho foi uma forma de fazer seu meio-campo ter mais do que simplesmente posse de bola. Sempre fora meio frágil a criação e a ligação do meio com o ataque. Bastava alguém controlar o meio-campo para dificultar as coisas para o Brasil. Foi o que a Holanda fez, sendo superior nas quartas-de-final.

   Momentos. A tecnologia escancarou os erros da arbitragem como nunca. Se a Itália representou a queda de um gigante apático, cuja organização do futebol interno está sendo repensado, o Uruguai foi um empolgante ressurgimento de um gigante adormecido. E Forlán merece, enfim, estar entre os gênios do futebol. E a África? Quase deu para chegar a uma semifinal dessa vez. Gana bateu na trave, mais precisamente no travessão. E os anfitriões sul-africanos, comandados por Parreira, orgulharam um país sofrido com uma espetacular vitória sobre os franceses.

   O ineditismo da final traz uma Espanha muito talentosa e técnica, com o melhor toque de bola do mundo. Peca um pouco pelo preciosismo na finalização, o que explica de certa forma os últimos placares mínimos obtidos. Jogando num clássico 4-4-2, a Espanha conta com meias atacantes que tornam seu ataque avassalador, mesmo sendo pouco finalizador. Ela tem sempre a posse de bola. Xavi e Iniesta são os maestros desse time, cuja alma é Puyol e David Villa.

   Já a fria e pacienciosa Holanda atua no seu clássico 4-3-3, mas que na prática, principalmente diante de adversários mais talentosos individualmente, joga num 4-5-1, que quando de posse da bola, passa rapidamente para um 4-2-4, sendo o forte ataque formado por Kuyt, Van Persie e Robben alimentado por Sneijder, o genial baixinho e cérebro do time, provavelmente eleito o maior jogador da competição.

   Será uma brilhante e inesquecível final, disputada por dois gigantes. Um deles, enfim, depois de muita espera, chegará ao tão sonhado e perseguido título mundial.

   São duas seleções que já merecem entrar no seleto grupo de campeões. Nas Olimpíadas, a Espanha leva vantagem. Foi ouro em 1992 e prata em 1920 e 2000. Já a Holanda foi bronze em 1908, 1912 e 1920 e também quarto lugar em 1924. Em Eurocopas, a Espanha leva vantagem de novo. Foi campeã em 1964 e 2008, além de ser vice em 1984. Já a Holanda foi campeã em 1988 e terceiro lugar em 1976, 1992 e 2000, além de um quarto lugar em 2004.

   Mas nas Copas, historicamente, a vantagem é dos holandeses. A Espanha já sediou uma Copa (1982), a Holanda não. A Espanha foi quarto lugar em 1950 e só, já a Holanda também foi quarto lugar em 1998, além de ter ser sido duas vezes vice-campeã, em 1974 e 1978. A Espanha me encanta, a Holanda também. Pessoalmente considero a Espanha superior, mas como disse diante do Brasil, não se enganem, a Holanda é um dos poucos times no mundo que podem vencer a Espanha. Como torcedor, nesse domingo vou vestir minha linda camisa laranja, réplica do mágico manto holandês de 1974.

julho 8, 2010 at 1:09 pm 2 comentários

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