Sócrates Brasileiro
dezembro 9, 2011 at 9:24 am 2 comentários
Texto de Gui Monteiro
Esse foi o maior de todos. Não foi louco como Heleno, nem torto como Mané, mas foi genialmente simples, como Pelé, o simplesmente genial. O Rei fazia tudo dentro de campo, mas não se valia da propalada competência para jogar de calcanhar. Tinha medo de errar ou não sabia mesmo. Nunca fez um gol utilizando a arma sutil do filósofo da bola. Seu calcanhar de Aquiles era e é a falta de humildade; era e é a falta de sabedoria, a fanfarronice; e era a obsessão pela vitória, a mesma que levou Ayrton Senna à morte. O Rei era apenas uma máquina de fazer gols e nem os cometia tão belamente como Zico e Maradona. Sócrates não: esse brasileiro, político em sua essência, passa para a eternidade pelo conjunto da obra, por tudo de bom e de mau que já falaram dele.
De bom, temos o futebol que conciliou duas técnicas aparentemente incompatíveis: objetividade e arte. Ao lado do Galo de Quintino (esse, nunca o entendi diminutivo, grande caráter de uma família de finos boleiros) e outros gênios, encantou o mundo com um futebol que podia ser retratado pelos grandes mestres da pintura. Zico, Sócrates e Maradona foram estetas do futebol.
De bom, temos o espírito democrático que plantou num Corinthians anacrônico a semente da vitória, para germinar nas décadas seguintes. O Brasil de um presidente operário e corinthiano agradece a contribuição do Doutor Sócrates como cidadão ciente de suas responsabilidades políticas. Ah, se todos fossem iguais a você, na defesa do que realmente importa, este seria um país menos miserável.
De bom, temos um homem que nunca se meteu em escândalos, nunca atacou quem quer que seja movido pela estúpida paixão, nunca cedeu às regras impostas pela corrupção que campeia no futebol dito profissional. Sócrates combina com Falcão e com a elegância que se curva aos pés de ambos. Esse tipo de atleta pertence a uma estirpe em extinção. Deixe-me citar pelos menos uns dez: Domingos da Guia, Gilmar dos Santos Neves, Nilton Santos, Didi, Djalma Dias, Figueroa, Ademir da Guia, Luís Pereira, Beckenbauer e Beckham.
De mau, temos o seu amor incondicional pelo álcool, a droga legal. Só isso. E mesmo assim, Sócrates não matou ninguém em acidentes automobilísticos. Nunca foi flagrado bêbado, pelas lentes de um desgraçado, numa balada cheia de mulheres de fama duvidosa, frequentadoras de programas de tevê de fama não menos duvidosa. Nunca estampou as páginas dos jornais ou protagonizou o noticiário televisivo ao lado de travestis e nem por ter espancado companheira ou acompanhante. Lá no Céu, para deleite do Roger aqui na Terra, o Magrão vai ensinar Inútil ao Kurt Cobain, e ambos vão chamar a Amy para fazer backing vocal. E ela vai, é claro. De graça.
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1.
futebolisticas | dezembro 9, 2011 às 9:31 am
Gui, texto brilhante, emocionante. Sempre fui o maior fã do Sócrates, ou pelo menos pensava que fosse. Depois de tantas homenagens ao ídolo, vejo que há muito mais gente na minha condição, na sua. O filósofo da bola era bom jogando, dando entrevista e agindo. Já faz muita falta, mas sua existência valeu a pena pela grandeza de sua alma, de suas atitudes, além do bom futebol com o qual nos brindou. Um grande abraço e parabéns pelo texto.
2.
Tiago Luiz | dezembro 10, 2011 às 4:43 am
Grande homem e jogador. Mesmo assim, foi vencido pelo álcool.